Memórias me fazem querer voltar…

Fiz um bate-volta para Aracaju nesses últimos três dias e me encontro numa condição extremamente cansada, emocionalmente esgotada e morrendo de saudade das minhas pessoas, mas mesmo assim acordei oito horas da manhã desse domingo e quis logo arrumar o apartamento de forma que troquei as roupas de cama, varri os cômodos, guardei roupas e já coloquei outras para lavar. Estranhamente, a necessidade de colocar tudo de volta no lugar e, ao mesmo tempo, limpar e renovar as coisas me fez perceber que reconheço esse apartamento em Sorocaba como o meu lar.

Eu já sabia que a sensação de pisar na minha casa em Aracaju seria diferente. Os intercâmbios me mostraram que a gente se acostuma com um novo lugar sem ao menos perceber. De repente, seu antigo quarto te parece estranho e você leva um tempo até processar que aquela é a sua casa e seu refúgio do mundo. Foi no momento em que sentei na cama do meu quarto de Aracaju, olhando todas aquelas coisas que um mês e meio atrás eram muito minhas que senti que algo havia mudado. Me senti menos pertencente daquele quarto do que estava esperando. Até então, ainda achava que o apartamento que estou morando em Sorocaba era apenas da minha flatmate e, sim, ele tem muito mais coisas dela do que minhas, mas senti hoje, arrumando-o, que esse ambiente é tão meu quanto dela. Mais meu do que eu poderia ter me dado conta.

Minha manicure disse que mudei o jeito que estava me comportando, mais madura, e não sei o quanto disso era verdade, nem sei se é possível que isso aconteça após um mês e meio fora de casa, mas de alguma forma me sinto diferente. Encontrar minhas amigas foi uma delícia, de repente não me senti mais tão sozinha no mundo e percebi que se eu quisesse ter momentos melhores aqui em Sorocaba, eu não podia continuar minha vida esperando viver tudo o que precisava em viagens rápidas para Aracaju. Preciso me jogar aqui, mesmo que sozinha, para dar uma chance ao universo de conhecer novas pessoas e criar novos laços. Me dei conta, por mais boba que essa revelação seja, de que absolutamente nada vai acontecer na minha vida se eu continuar dentro da minha casa o dia inteiro.

Em relação ao reencontro com a minha família, foi maravilhoso sentir que meus pais vão estar aqui para mim a qualquer momento e que eles e meu irmão valorizam a minha presença de uma forma que não tinha me dado conta. Sou a amigona do meu pai e do meu irmão e a parceira da minha mãe, mesmo que lá eu tenha me deixado confortável para fazer uma bagunça absoluta no meu quarto (coisa que não acontece aqui). Senti a alegria deles pelo jeito que faziam questão de ficar perto de mim a ponto de conseguirmos almoçar juntos lá (sempre era um problema, cada um no seu horário). Também me dei conta que a saudade nunca vai passar. Ela diminui, mas vai estar sempre aqui para me pegar de surpresa nos lugares mais inapropriados (como aconteceu ontem no terminal II de Guarulhos).

Com o meu namorado, as coisas foram um pouco diferentes. Já vínhamos enfrentando questões passadas muito difíceis e a distância não ajudou muito. Fui com a expectativa de que tudo ficasse bem, mas não chegamos a conclusão nenhuma. Mesmo assim não desgrudamos nenhum segundo um do outro e agora me dei conta de que mesmo que esteja tudo difícil, nossa vontade de ficar junto é muito forte. Já deixei de acreditar que o amor cura e supera tudo há um tempo, mas preciso reconhecer que o amor segura muitas pontas que um relacionamento mais raso não segura e é nisso que me agarro com força.

Foram muitos aprendizados. Voltei cansada, mas feliz por saber que tudo está no lugar que deveria estar e aprendi que mesmo que eu ache que não estou controlando as coisas, estou tentando e essa é uma abordagem que te cansa muito porque você não percebe no momento. Foi bom me dar conta disso. Há certas coisas que não estão no nosso escopo de resolver e tudo bem. Vai passar. Tudo passa.

Advertisements

Uma nova vida

São 07:35 da manhã do sábado e hoje está fazendo oficialmente duas semanas que cheguei em Sorocaba (SP). Foram duas semanas intensas, de adaptação em relação ao trabalho, aos horários, às pessoas, à cidade e a essa vida nova longe de tudo o que sempre foi familiar para mim. Me despedi da minha mãe no domingo passado e desde então tenho tentado conduzir minha vida sozinha por aqui. Até então tenho lidado bem,  mantendo meu quarto e tudo no lugar como nunca fiz na minha vida, mas na quarta-feira a saudade apertou como nunca tinha acontecido antes. Chorei antes de dormir levantando um monte de questões na minha cabeça do tipo “será que vou conseguir me conectar com alguém aqui?”, “será que vou voltar para Aracaju depois dessa oportunidade ou vou ficar aqui”? A ideia de que talvez eu não volte para Aracaju me dói e me deixa ansiosa, mas meus pais sempre me disseram, desde pequenininha, que a gente tinha que ir para onde as oportunidades nos levavam. Eu sabia que ia dar medo, sabia que ia doer (todo mundo fala sobre essa dor), sabia que ia sentir falta da minha família, meus amigos e meu namorado e, no entanto, estou aqui e a cada dia que passa percebo o quanto estou aqui, mais aqui do que em qualquer lugar.

Minha rotina durante a semana começa às 5:15h da manhã com o despertador. 5:40h pego o ônibus que pela graça de Deus para na frente do meu apartamento. 6:25h tomo o café da manhã da empresa e 7:00h já estou entrando na sala e pegando a primeira mesa vaga que vejo no meu setor. Apesar desse começo de dia ser repetitivo, as coisas mudam quando sento na mesa para trabalhar. Eu nunca fui tão produtiva na minha vida. Abro meu caderno e anoto tudo o que tenho para fazer e, como os prazos são sempre curtos, preciso correr contra o tempo para que eu consiga fazer tudo. São 8h intensas de trabalho que tem me deixado orgulhosa. Tenho feito o máximo para não levar trabalho para casa e tem funcionado. Tenho entregado tudo com antecedência e tentado orgulhar meus tutores. É cansativo, mas sei reconhecer o privilégio da oportunidade e quero aprender o máximo que puder ali dentro.


sol nascendo depois do café da manhã (blessed)

Obviamente quando chego em casa estou só o pó da rabiola. O ônibus me deixa no ponto 17:25h e 17:30h já estou em casa, tirando o sapato e me jogando na cama. Depois segue a rotina de tomar um banho, comer alguma besteira, assistir um pouco de Grey’s anatomy e esperar minha flatmate chegar em casa para fazermos o jantar juntas. Cozinhamos e conversamos sobre o dia, sentamos no sofá e mofamos lá. Quando dá umas 20:40h vou para o meu quarto ligar para o Marcos e meus pais, falar sobre o dia, até que dá umas 21:40, escovo os dentes e vou deitar. É isso. Não é nada emocionante, eu sei, mas por enquanto é o que tenho conseguido fazer. Mariana (flatmate) está tentando me estimular a me matricular na academia, mas só a ideia disso já acaba comigo. Sem brincadeira nenhuma, todo dia dou uma caminhada de 45 min em subidas e descidas na empresa por causa da distância dos setores. Talvez eu tenha mais energia nas próximas semanas. Ah, nas quarta-feiras retomei o alemão. Infelizmente a professora me fez regressar um nível e fiquei muito triste, mas se for para conseguir perder o medo de falar e melhorar meu conhecimento, vale a pena…

WhatsApp Image 2018-04-23 at 17.40.11
morta feat. enterrada

O pessoal do trabalho é muito legal e gentil e, aos poucos, estou me aproximando da estagiária que chegou em fevereiro e também veio de outra cidade sozinha. Ela é uma fofa e gosta muito de conversar sobre mil coisas. Os almoços tem sido especialmente bons para poder me conectar com o pessoal do trabalho. Às vezes sento em outras mesas e puxo conversa com outras pessoas. Já conheci mecânicos e operadores de máquina muito simpáticos e que me desejaram muita sorte na nova jornada.

Sei que esse post é apenas a folha de um diário, não tem grandes inspirações e muito menos uma lição de vida, mas essa semana pensei no quanto queria escrever sobre essa adaptação e continuarei escrevendo sobre ela quando encontrar forças para escrever. Por enquanto, me sinto muito sozinha, mas vou ter fé no universo que na hora certa vou conhecer as pessoas certas e tudo vai se encaixar. É isso.

Stay strong. ❤

A jornada da autoaceitação

Desde que comecei a tomar consciência de quem sou e quem estou me tornando, percebi que sou refém de uma autoestima baixa. Essa semana isso foi comprovado quando meu namorado sugeriu que eu baixasse o Cíngulo (estou cheia de dicas esse mês kkk) no celular, um app que analisa como estão seus níveis emocionais no momento. Para a surpresa de ninguém, o que li naquela tela era que eu não só tinha uma autoestima baixa como também estava com a autoestima frágil. Acredito ser o combo da Era Millenial.

Com esse diagnóstico, achei engraçado o fato que venho consumindo MILHARES de conteúdos sobre autoestima na internet através de @s como a da Carol Garcia, Marci Marciano, GWS nos últimos meses e que, pelo visto, isso não tem dado conta dos danos que eu mesma causo/causei aqui dentro. Danos esses que, às vezes, em brincadeiras que faço com meus amigos e namorado são o mais puro reflexo das minhas inseguranças. Não é legal se chamar de FRAUDE em relação à profissão. Eu não me sinto uma fraude e continuo brincando disso. Não é legal dizer que acho meu nariz HORROROSO quando na verdade entendi que é genética e passei a aceitá-lo há anos e me sinto tranquila com ele. Há algo errado em tudo isso.

Em relação ao meu corpo, tenho consciência de tudo o que a mídia e os padrões de beleza fazem com a nossa cabeça. Já vi vídeos de pessoas usando o photoshop para uma pessoa dentro do padrão parecer mais perfeita ainda mais de uma vez. Já presenciei e fiz parte de conversas com amigas de todos os tamanhos possíveis inconformadas com o corpo dizendo coisas como “eu queria mais bunda”, “eu queria ficar mais malhada”, “essa gordura nas minhas costas me incomoda muito”, numa conversa infinita em que ninguém apreciava o que era bonito na outra, sendo apenas um disparate sem fim de críticas. Conversas que se repetem, mesmo que em menor quantidade, mas que fazem mal a ponto de eu estar bem com o meu corpo e ainda assim sentir necessidade de criticá-lo.

jessica capshaw GIF

Isso chegou a um ponto que não preciso me reunir com outras pessoas para ter esse tipo de conversa depreciativa comigo mesma sobre o meu corpo, sobre quem eu sou, sobre minha postura, meus hábitos e meus interesses. Enfim, sobre a minha essência. Parece que tudo ficou passível de crítica e depende da aprovação dos outros e aqui não estou não estou fazendo alusão a redes sociais, mas tão só a vida real mesmo. O mais engraçado é que meus amigos não tem noção da profundidade dessas inseguranças. Acho que o que me mantém seguindo em frente é o fato que muitas vezes eu ligo o foda-se e ajo como eu quero diante de situações e sempre estou fazendo graça das coisas. Torna tudo mais fácil, até porque meu medidor de sucesso sempre foi e sempre será a risada dos outros.

A maior prova desse “meter o louco” seguido de comiseração que está intrínseco a mim é que eu cortei o cabelo BEM curtinho ontem e, apesar de ter AMADO na hora que vi no salão e saí na rua sentindo a brisa na nuca, eu comecei a fazer brincadeiras dizendo que estava parecendo um menino e que o meu cabelo parecia um capacete. Às vezes realmente me dá essa sensação, mas o que custa dizer que achei lindo algo que fiz por mim? Que necessidade é essa de me fazer de coitadinha para os outros virem amaciar meu ego e dizer que ficou lindo? Por que eu preciso disso? Tudo faz parte da insegurança, eu sei, mas quero achar a raiz dessas coisas.

O que quero saber diante desse texto todo é: o que preciso fazer para trabalhar essa autoestima que é tão abalável e tão baixa? Se alguém tiver uma resposta, por favor, me avisa.

Sobre seguir o meu caminho

Desde que era adolescente, tinha muito certo na minha cabeça que em algum momento eu iria morar longe dos meus pais e isso nunca foi uma grande questão para mim. Quer dizer, meus pais me criaram assim, morando longe de suas respectivas famílias (meu pai é mineiro e minha mãe é cearense) e criando um círculo sólido de amizades por onde passavam. Meu pai é violeiro, adora meter as caras na churrasqueira e tomar uma cachacinha com os amigos e minha mãe adora receber pessoas em casa, ajudar os amigos com suas questões e jogar um baralho de vez em quando. Desde que me lembro por gente foi assim e nada mudou nesse quesito.

Em paralelo a essa sabedoria, eu sempre tive medo da solidão. De não me encaixar. Ao contrário dos meus pais, eu não tenho muito costume de estar criando ambientes para receber amigos em casa ou mandando mensagens chamando o pessoal para sair. Eu só acho que todas as pessoas já tem algo programado e isso acaba sendo o ponto principal para me afastar dos meus amigos ou até mesmo de situações que vou conhecer pessoas novas. E esse é um ponto-chave quando começo a pensar nessas mudanças para lugares longe onde não conheço ninguém.

Em 2014, como um sopro, concorri a uma bolsa para realizar uma pesquisa na área de soldagem na Alemanha e fui selecionada. A seleção aconteceu em junho e fui para lá em agosto. Não tive tempo para pensar em amigos, aventuras, me preparar para a cidade que eu ia, muito menos o país. Fechei os olhos e apenas fui com uma coragem que não sei dizer de onde tirei. Vivi grandes momentos, conheci pessoas fofas e bondosas, ajudei muito e fui ajudada em troca, aprendi a lidar com uma língua dificílima e viajei para vários lugares que jamais imaginaria que conheceria aos 21 anos. Foi a primeira vez que passei um tempo longe da minha casa (6 meses) e, apesar de estar desesperada para voltar por causa do inverno alemão e da saudade, quando cheguei aqui demorei bastante para entender uma angústia existencial que me comeu viva por dentro por mais tempo do que poderia ser considerado saudável: comecei a perceber que meu lugar não era aqui dentro da casa dos meus pais.

Não quero ser considerada insensível ou ingrata. Meu maior medo ao escrever essas palavras e pensar algo do tipo sempre foi o universo entender como ingratidão, mas só eu sei o quanto amo meus pais, meu irmão, meus cachorros, minha gata, minha casa, meu quarto e minhas coisas. Amo esse bairro que resido há 15 anos, essa possibilidade de andar na beira da praia a duas quadras, o calor, tudo, mas certa vez li em algum lugar que uma vez que você sai de casa, não quer mais voltar porque tudo é diferente. Meus pais me dão liberdade e dinheiro para sair e eu realmente tenho uma vida muito boa aqui, mas sinto que preciso aprender a andar com meus próprios pés, me distanciar um pouco dos problemas de casa (absorvo muita coisa), tomar minhas próprias decisões (minha mãe sempre interfere nisso) e viver a minha vida. Sei que é fácil dizer isso voltando de um intercâmbio no 1º mundo, mas não é nem sobre o lugar que eu digo, é sobre a sensação de estar no comando da própria vida.

Minha mãe sofre um pouco com isso porque ela ainda não entendeu que eu cresci, me tornei uma mulher e agora tenho uma profissão. Dia desses participei de um processo seletivo e enquanto estava respondendo algumas perguntas, falei para ela o que havia respondido em uma das questões. Ela disse “acho que você deveria responder…” e eu disse “mãe, pode parar, eu já respondi”. O resultado? Ela saiu super chateada, falando com desdém “ok, miss independente!” e foi dormir sem falar comigo. No momento fiquei indignada (abri mão de tentar controlar como me sinto em algumas situações), não acreditando que minha mãe queria dar pitaco sobre algo referente à MINHA profissão que passei 6 anos estudando, sabe? Depois de respirar muito fundo e pensar em várias situações que tinham acontecido, percebi que ela não assimilou esse crescimento porque ainda moro aqui e dependo dela financeira para absolutamente tudo. Sempre brinquei dizendo que eu vivia uma extensão da minha adolescência e, olha só, no final das contas é isso mesmo.

Tudo isso para dizer que surgiu uma oportunidade e vou sair de casa mais uma vez. Só que agora para trabalhar na minha área. Talvez eu conte mais disso em outro post, mas preciso dizer que inicialmente foi um choque receber a notícia, inclusive acho que a mulher do RH da empresa que me ligou com certeza não estava me esperando dizer “é sério que fui escolhida?” uma três vezes, mostrando a amadora que sou. Foi realmente uma surpresa muito incrível. Jamais imaginaria que iria para uma empresa do porte dessa que passei, ainda mais fazendo pesquisa na minha área preferida. Era uma das coisas que eu não achava que era capaz porque muita gente me questionou na universidade. Já ouvi muitos “você não tem perfil de empresa”, “você é muito mole”, “você é doce demais para o ambiente empresarial”, etc. Foram frases que me desestimularam ao longo dos anos e que me fizeram perder o encanto com essa parte da minha profissão. Eu só não sabia que a chama seria reascendida tão rápido e tão intensamente. Felicidade e ansiedade tem sido os maiores sentimentos que cabem no meu peito. Muito mais que um mestrado para ser sincera.

ddd

Eu sempre soube que iria morar longe dos meus pais e acho que essa jornada finalmente começou. No momento não tenho muitas coisas para dizer para vocês, mas mandem energias boas. Estou no processo de procurar um cantinho para morar e dentro de um ou dois meses acredito que vou trazer novas aventuras (e um projeto legal que estou montando com meu namorado).