Sobre seguir o meu caminho

Desde que era adolescente, tinha muito certo na minha cabeça que em algum momento eu iria morar longe dos meus pais e isso nunca foi uma grande questão para mim. Quer dizer, meus pais me criaram assim, morando longe de suas respectivas famílias (meu pai é mineiro e minha mãe é cearense) e criando um círculo sólido de amizades por onde passavam. Meu pai é violeiro, adora meter as caras na churrasqueira e tomar uma cachacinha com os amigos e minha mãe adora receber pessoas em casa, ajudar os amigos com suas questões e jogar um baralho de vez em quando. Desde que me lembro por gente foi assim e nada mudou nesse quesito.

Em paralelo a essa sabedoria, eu sempre tive medo da solidão. De não me encaixar. Ao contrário dos meus pais, eu não tenho muito costume de estar criando ambientes para receber amigos em casa ou mandando mensagens chamando o pessoal para sair. Eu só acho que todas as pessoas já tem algo programado e isso acaba sendo o ponto principal para me afastar dos meus amigos ou até mesmo de situações que vou conhecer pessoas novas. E esse é um ponto-chave quando começo a pensar nessas mudanças para lugares longe onde não conheço ninguém.

Em 2014, como um sopro, concorri a uma bolsa para realizar uma pesquisa na área de soldagem na Alemanha e fui selecionada. A seleção aconteceu em junho e fui para lá em agosto. Não tive tempo para pensar em amigos, aventuras, me preparar para a cidade que eu ia, muito menos o país. Fechei os olhos e apenas fui com uma coragem que não sei dizer de onde tirei. Vivi grandes momentos, conheci pessoas fofas e bondosas, ajudei muito e fui ajudada em troca, aprendi a lidar com uma língua dificílima e viajei para vários lugares que jamais imaginaria que conheceria aos 21 anos. Foi a primeira vez que passei um tempo longe da minha casa (6 meses) e, apesar de estar desesperada para voltar por causa do inverno alemão e da saudade, quando cheguei aqui demorei bastante para entender uma angústia existencial que me comeu viva por dentro por mais tempo do que poderia ser considerado saudável: comecei a perceber que meu lugar não era aqui dentro da casa dos meus pais.

Não quero ser considerada insensível ou ingrata. Meu maior medo ao escrever essas palavras e pensar algo do tipo sempre foi o universo entender como ingratidão, mas só eu sei o quanto amo meus pais, meu irmão, meus cachorros, minha gata, minha casa, meu quarto e minhas coisas. Amo esse bairro que resido há 15 anos, essa possibilidade de andar na beira da praia a duas quadras, o calor, tudo, mas certa vez li em algum lugar que uma vez que você sai de casa, não quer mais voltar porque tudo é diferente. Meus pais me dão liberdade e dinheiro para sair e eu realmente tenho uma vida muito boa aqui, mas sinto que preciso aprender a andar com meus próprios pés, me distanciar um pouco dos problemas de casa (absorvo muita coisa), tomar minhas próprias decisões (minha mãe sempre interfere nisso) e viver a minha vida. Sei que é fácil dizer isso voltando de um intercâmbio no 1º mundo, mas não é nem sobre o lugar que eu digo, é sobre a sensação de estar no comando da própria vida.

Minha mãe sofre um pouco com isso porque ela ainda não entendeu que eu cresci, me tornei uma mulher e agora tenho uma profissão. Dia desses participei de um processo seletivo e enquanto estava respondendo algumas perguntas, falei para ela o que havia respondido em uma das questões. Ela disse “acho que você deveria responder…” e eu disse “mãe, pode parar, eu já respondi”. O resultado? Ela saiu super chateada, falando com desdém “ok, miss independente!” e foi dormir sem falar comigo. No momento fiquei indignada (abri mão de tentar controlar como me sinto em algumas situações), não acreditando que minha mãe queria dar pitaco sobre algo referente à MINHA profissão que passei 6 anos estudando, sabe? Depois de respirar muito fundo e pensar em várias situações que tinham acontecido, percebi que ela não assimilou esse crescimento porque ainda moro aqui e dependo dela financeira para absolutamente tudo. Sempre brinquei dizendo que eu vivia uma extensão da minha adolescência e, olha só, no final das contas é isso mesmo.

Tudo isso para dizer que surgiu uma oportunidade e vou sair de casa mais uma vez. Só que agora para trabalhar na minha área. Talvez eu conte mais disso em outro post, mas preciso dizer que inicialmente foi um choque receber a notícia, inclusive acho que a mulher do RH da empresa que me ligou com certeza não estava me esperando dizer “é sério que fui escolhida?” uma três vezes, mostrando a amadora que sou. Foi realmente uma surpresa muito incrível. Jamais imaginaria que iria para uma empresa do porte dessa que passei, ainda mais fazendo pesquisa na minha área preferida. Era uma das coisas que eu não achava que era capaz porque muita gente me questionou na universidade. Já ouvi muitos “você não tem perfil de empresa”, “você é muito mole”, “você é doce demais para o ambiente empresarial”, etc. Foram frases que me desestimularam ao longo dos anos e que me fizeram perder o encanto com essa parte da minha profissão. Eu só não sabia que a chama seria reascendida tão rápido e tão intensamente. Felicidade e ansiedade tem sido os maiores sentimentos que cabem no meu peito. Muito mais que um mestrado para ser sincera.

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Eu sempre soube que iria morar longe dos meus pais e acho que essa jornada finalmente começou. No momento não tenho muitas coisas para dizer para vocês, mas mandem energias boas. Estou no processo de procurar um cantinho para morar e dentro de um ou dois meses acredito que vou trazer novas aventuras (e um projeto legal que estou montando com meu namorado).

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Exercícios físicos e limites

Eu nunca gostei muito de exercícios físicos. No ensino fundamental, fiz natação e karatê e ia morrendo para as duas aulas. Na educação física, era uma das últimas a ser escolhida para os jogos porque era gordinha e desengonçada (já me falaram isso). Pedi para minha mãe me matricular no ballet e odiei toda aquela história de postura e ficar quieta em um canto. Acho que o único exercício que de fato me fez bem foi a ginástica olímpica, porém sempre fui medrosa demais com medo de me quebrar toda e não aprendi a dar uma estrelinha direito.

Dá para ver que não esporte não era meu clube.

Quando cresci, não foi muito diferente, com a exceção de que voltei para a natação e encontrei a chance de melhorar da minha cirurgia de coluna mais rápido. Foram três anos de natação em um clube perto de casa, reconstruindo meu corpo e tendo ele bem fortalecido. Depois que saí, nunca mais consegui me envolver com exercício nenhum. A preguiça, o medo de machucar a coluna e a universidade ENGOLINDO toda a minha energia vital foram alguns dos motivos que me fizeram parar de tentar encontrar no esporte aquela leveza que tantos diziam que eu ia encontrar. Nesse meio tempo todo, me matriculei em academias que só ia uma semana e voltava um mês depois. Em algum momento, fiz pilates com regularidade, mas os intercâmbios que fiz favoreceram para quebrar essa rotina.

Esse ano, como já contei por aqui, não fiz nenhuma resolução de perder peso e me matricular na academia, coisa que desde os 18 anos sempre estavam presentes nas minhas metas anuais. Ano passado, com 24 anos, aprendi que preciso atender às minhas necessidades físicas e mentais e percebi que minha cabeça estava muito ruim depois da formatura. Ganhei uma bicicleta linda da minha mãe e decidi que ia fazer valer esse dinheiro que ela investiu. Até então, eu não estava matriculada em uma academia.

Andei de bicicleta em novembro e dezembro do ano passado de uma forma intensa. Ia em horários diferentes sempre passeando pelo mesmo lugar e, sem estar abitolada com a ideia de perder peso, podia apreciar as pessoas, o canto dos passarinhos, os patinhos na lagoa, a lua, o pôr-do-sol, os dias claros que me mostravam um verde lindo no caminho que até aquele momento eu nunca tinha parado para apreciar. Foram dias que me fizeram MUITO bem pra mente. Aprendi que tem dias que a gente só precisa sair para respirar um ar puro enquanto o corpo nos leva a lugares incríveis.

Em janeiro, decidi que queria fortalecer mais o corpo e acabei me matriculando em uma academia que não tinha ar-condicionado, mas que por indicação tinha profissionais animados e legais. Fiz a inscrição sem me cobrar demais, só por um mês para ver se ia gostar. e foi uma das melhores coisas que fiz por mim. Às vezes o conforto está na conversa tranquila e na atenção que o seu instrutor tem com você na hora de fazer exercícios e não no ar-condicionado. Comecei a malhar com frequência na academia, entendendo mais sobre as necessidades do meu corpo e sempre deixando o celular em casa. Era um momento só meu.

Agora em fevereiro, meu irmão insistiu para que eu fosse com ele fazer uma aula de Muay Thai. Fiquei com medo, novamente, por causa da coluna, mas acabei cedendo. E, para minha surpresa, fui nas duas aulas da semana passada. O Muay Thai está trazendo uma percepção muito foda do meu corpo, sempre me levando para alguns limites que eu não conhecia. Na última aula, o professor pediu que eu desse chutes e socos por 3 minutos com um leve intervalo de 30 segundos. Foi tão exaustivo que senti meu músculo do braço tremendo, mas depois disso, parece que minha mente ficou vazia. Que toda e qualquer coisa que pudesse ser um ponto de preocupação, ficou mais fácil de resolver porque eu não queria gastar energia que não tinha pensando em infinitas possibilidades. Quando você está cansado fisicamente, só existe uma resposta para o problemão que você estava criando na sua cabeça e tudo fica mais simples.

Se me falassem isso uns dois anos atrás, eu riria e falaria que a pessoa está louca. Sempre tive esse conceito que eu era muito frágil por causa dos ossos quebrados, tornozelos torcidos e coluna parafusada que tenho, mas acho que a gente precisa se desafiar pra descobrir o que é qualidade de vida pra gente, sabe? No momento, qualidade de vida pra mim está sendo escutar o professor dizendo que estou errando, mas indo bem e usando toda a minha força para conseguir fazer as coisas certas na aula de Muay Thai.

Como se não bastasse, ontem fiz a minha primeira trilha na vida ao lado do meu namorado. 14 km com subidas e descidas íngremes, sem contar a subida e descida da cachoeira em si. Eu não estava esperando por isso e, com certeza, foi algo DEMAIS para mim que não estava acostumada. Foi um momento de dor absurda, de vontade de chorar na volta achando que ia morrer e ficar por ali, de dor nos pés, na perna, na coluna, de reduzir as passadas, de ficar calada do lado do meu namorado para poupar minha energia, de parar no meio das subidas e xingar um pouco essa ideia MALUCA que a gente teve, de querer fingir que a cachoeira era aquele monte de areia e rolar no chão, de molhar o tênis no meio da caminhada umas três vezes e ter que prosseguir andando porque o grupo não ia parar. Foi foda, mas também no momento que tomamos banho no rio senti uma das sensações mais gostosas da vida. Poder ficar sentada no meio do mato com os olhos fechados para ouvir os passarinhos cantando de um lado e a cachoeira jorrando água do outro também foi um momento recompensador. Existe paz no meio da dor e acho que a vida ensina isso para nós de diversas maneiras.

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Preciso reconhecer que se eu tivesse feito isso sozinha, ia ser uma experiência muito mais dolorosa. Sou muito grata por Marcos (meu namorado) ter cantado músicas do meu lado (músicas que ficaram ecoando na minha cabeça em vários momentos), conversado comigo, reduzido o passo para me acompanhar DIVERSAS vezes, entender que eu não ia conseguir conversar em alguns momentos, não reclamar NUNCA de eu precisar parar no meio do caminho e segurar minha mochila algumas vezes quando ele via que eu estava sofrendo demais. Eu amo tanto esse homem que não consigo nem escrever em palavras direito. Eu sei que tudo valeu à pena porque pude compartilhar todos esses momentos com ele. Dos bons aos ruins. Na alegria e na tristeza. No amor e na dor. É incrível ter essa noção e consciência um ano e meio depois de namoro que tenho uma pessoa brilhante e carinhosa do meu lado (obrigada, amor).

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Tudo isso para dizer que no meio dessas experiências desafiadoras, me descobri uma pessoa muito mais forte e muito mais sortuda da vida que tenho. De repente virei uma dessas pessoas que falam que tudo está na sua mente, inclusive as suas limitações. Ainda tenho medo pela minha coluna e procuro fazer tudo certo, mas isso já não é mais um motivo para me frear de conhecer coisas incríveis, desafiadoras e legais. A vida é muito curta para nos privarmos tanto.

Zonas de conforto e um novo mês

A primeira newsletter do ano da Júlia Medina trouxe um resumo de como estava sendo seu mês de janeiro pós-formatura. Basicamente, ela diz sobre os dias que parecem estranhos sem obrigação de nada para fazer depois de anos na loucura da escola seguida da graduação dela. Sobre como às vezes bate uma angústia existencial absurda, mas também sobre como esse tempo de calma tem sido interessante o suficiente para viver o presente e dar valor nos detalhes dos dias que vão passando, às vezes devagar demais, às vezes rápidos demais.

Ela conseguiu sumarizar absolutamente tudo o que tenho vivido nesse período entre o final da graduação e os próximos passos, sejam eles quais forem (é normal demais não ter certeza nenhuma do que se quer). Sem querer, fui direcionando os meus para a vida acadêmica e cheguei ao fim das provas e seleções de mestrado. Acabou que na última seleção que fiz em janeiro para a universidade que mais queria cursar meu mestrado, não passei e vou ficar aqui na universidade onde fiz minha graduação. Apesar de todos os prós de poder ficar na casa dos meus pais com todas as regalias, perto da minha família, namorado, amigos e doguinhos, me dá um nervoso absurdo porque já me disseram que o mestrado daqui é de arrancar o couro de um (hehe). Mas disseram que se você sobrevive, tá preparadíssimo para entrar em um doutorado com facilidade. Veremos.

Dentro dessa pilha toda de pensar no que será minha vida a partir de março, tenho aproveitado a calma dos dias para andar de bicicleta (bem menos do que estava andando em dezembro devo confessar), caminhar com os meus cachorros e viver meus relacionamentos da melhor maneira que consigo me puxando para fora da minha zona de conforto que, inclusive, é algo que tem me deixado muito incomodada. Comecei a prestar atenção nos meus padrões no mês passado e percebi que tudo o que faço dentro dessa zona é procrastinar as coisas que preciso/quero fazer. Não me esforço para marcar um encontro com meus amigos ou fazer algo especial e divertido com meu namorado, deixo de fazer academia que está me fazendo tão bem, como porcarias que sei que vão me fazer muito mal, fico vendo vídeos do youtube em looping infinito, fico vendo os stories de outras pessoas, assisto séries no youtube até meu corpo sentir que está cansado demais e durmo porque, com toda essa inércia, isso é o que eu tenho vontade de fazer durante a tarde. Minha zona de conforto tem me deixado desconfortável porque nela não quero fazer absolutamente nada e não cumpro nada das pequenas tarefas que me proponho no começo da manhã.

Confesso que tem sido difícil ficar em casa após esses anos todos de estudo sem ter uma obrigação concreta no meu dia a dia e isso tem me jogado para o fundo do poço dessa zona com direito a surtos de “eu não faço nada, não sirvo para nada, sou uma incompetente, etc”. Se eu estivesse me sentindo bem aqui vivendo isso desde outubro, tudo bem, mas não tem sido bom. É muito ruim sentir que tudo o que você tem feito não tem um propósito. Que seu objetivo no dia é saber o que vai comer, quantas vezes vai dormir e quantos episódios vai assistir daquela série que você adora. Se você também se sente assim, te proponho a colocar um pé para a fora da zona de conforto junto comigo e contar como foi essa jornada no final de fevereiro.

via tumblr

Para vocês terem ideia, ontem fiquei no dilema de ir para o bloquinho que aconteceu perto da minha casa ou ficar em casa descansando porque estava com preguiça de ir lá dançar e socializar (!!!!!!!!!). Sendo que minhas amigas estavam lá e meu namorado super topou de ir. Acabei indo, tomei duas skolbeats, parei no meio da rua pra rebolar a bunda ao som de uns funks que todo mundo sabia menos eu e beijei muito meu amor. Se isso não for carnaval, eu não sei o que é. Além disso, ainda esse fim de semana aceitei o desafio do meu irmão e do meu namorado de ficar em pé no skate e acabei aprendendo a ANDAR DE SKATE de verdade (i’m not kidding, aprendi a remar e seguir em frente). É esse tipo de proposta que tenho para vocês, até porque fazer esse tipo de desafio em conjunto é muito mais divertido. Vamos?